A Morte Morreu
A reprodução do salmão é fantástica. Os pais fertilizam os
ovos espalhando esperma por toda a água em seu redor, as mães ficam à espera,
ambos morrem e são comidos pelas crias. O salmão é hiper-moderno porque, além
de renovar, recicla as gerações. Os salmões não tentam ser como os pais porque
os conhecem mas porque são biologicamente comandados a tal. Acho que a conclusão da história é por de
mais evidente, se já leram as restantes mortes já a descobriram de certo. Não
fica mal dizer, mesmo assim, que sendo nós pessoas de memória e não forçados,
como o salmão, a reduzir a renovação de gerações a uma inutilidade teórica, que
dizer o que já foi dito e fazer o que já foi feito é no mínimo gozar com o
coitado do salmão. E eu até gosto de salmão, mesmo que seja um peixe gordo,
porque eu não discrimino pela aparência. É a personalidade que conta, não o
exterior, tal como nos filmes, ser atractivo ao olhar e ter efeitos especiais derivados
da maquilhagem e do guarda-roupa não contam para nada.
Sentindo eu agora a necessidade de dizer alguma coisa que
não confie apenas no poder da extensa ironia, vou fazer um pequeno apontamento
de uma ideia que é sempre muito simples de perceber mas muito difícil de se
pensar. Se alguém gostar de um filme não tem de pensar, qual rainha matemática,
que o filme é bom. Este pequeno raciocínio que muito nos acompanha vem da
simples falácia que é pensar que a nossa realidade se aproxima mais da verdade
que a dos outros e que, por isso, o que nós gostamos é o que é realmente bom. Os
agraciados são aqueles que gostam do que é bom. E como sabemos nós o que é bom
ou mau? Nada mais do que esta pergunta assola tudo o que fala e portanto
critica. É uma pergunta difícil de responder mas tem resposta. A resposta está
em todas as páginas da humanidade, reside nas pessoas que são génios, e para as
distinguirmos melhor devemos recuar um pouco, para nos afastarmos
invariavelmente dos imbecis que os odeiam e rodeiam e que eventualmente
desaparecem, não por não existirem mas porque já não é um tema actual o
suficiente para ser discordado porque já faz parte de um dogma. Falarei então
de Miguel de Cervantes, o autor do suposto primeiro romance moderno, inventor
do conceito do anti-herói e, pessoalmente falando, progenitor de quase todos os
artifícios de escrita hoje usados pelos grandes escritores, mas isso seria
objecto de uma grande tese. Falando agora das novas gerações, os que mais se
aproximam de Dom Quixote são invariavelmente os mais expeditos na arte, falando
só do anti-herói, já foi usado por Gogol e Dovstoievski, por Flaubert, por
Flannery O’Connor e Tom Wolfe, por Oscar Wilde, por Salman Rushdie e basicamente
quase todo e qualquer romance que tenha ficado na história. Fazendo o exercício
oposto, encontra os livros onde os heróis ainda são pessoas não-humanas como os
de Dan Brown ou outros muitos que fazem com que ler já não seja um exercício de
deleite mas um passatempo vazio. Passando à música, hoje em dia vê-se que o
grande experimentalismo musical vem sempre do Jazz e que eventualmente todos
aqueles que são os grandes músicos mais cedo ou mais tarde se aproximam do
Jazz, na sua música e na sua maneira de ser. O improviso, a não obsessão com a
composição e o aperfeiçoamento do som mas sim com o conteúdo. Todos os grandes
músicos de Jazz hoje em dia se aproximam eventualmente de Miles Davis, homem
que já foi muito odiado e até teve o descaramento de ir a concertos do Prince,
mas digo-vos que se fosse para ouvir a “My Name Is Prince” ou a “Sexy Mother
Fucker” também eu ia. Partindo para o cinema existe também um denominador comum
aos grandes filmes, que reside na insistência de transmitir algo para além de
uma simples história. Só na conjugação desta premissa com a grande fotografia e
as grandes sequências é que se pode ter um grande filme. Os outros que são
apenas parte serão sempre menores, e já exaustivamente enchi os meus textos de
explicações para este facto.
Com todas estes sentidos conjuntos de palavras quero dizer
que a genialidade se aproxima eventualmente uma à outra. Não é difícil
encontrar os génios, aqueles que têm uma legião de idiotas contra e se afastam
sempre dos cânones. Que nunca se conformam com o que já existe e procuram algo
mais acima disso, assim é a evolução do pensamento. Não confundam, eu não quero
dizer que são todos iguais, mas a matriz de que partem, os princípios básicos que
os regem são os mesmos e as ideias que os acompanham têm também tendência para
se aproximar, mas são na sua proximidade de uma diversidade imensurável. Não é
portanto um padrão mas a negação à natureza de que o conhecimento é inútil. Eu
admiro tudo o que transpire inteligência, o meu gosto sobre as coisas vai
sempre contra quase todos, mas a minha reflexão sobre elas é compreensível, e
pretendo com isto demonstrar o que para mim é evidente. O meu gosto coincide
exactamente com esta busca, que é uma grande parte de mim próprio, defendo-a
porque a considero correcta. Como é de conhecimento geral, algo fundamentado é
verdade até prova em contrário e, como é contrário ao que normalmente se diz,
tudo o que é arte é debatível e definido em melhor e pior independentemente do
gosto de cada um. Para mim esta ideia é evidente, para vocês pode ser a maior
estupidez ou ser incompreensível, para o mundo nem sequer interessa.
PS: A morte morreu mas volta para Setembro, talvez renovada
e em novo formato. Este foi apenas um bom truque de propaganda.